POV de Aria
A joalheria cheirava a dinheiro e poder.
O ouro e o vidro brilhavam sob as luzes, exibindo um luxo silencioso. Era um lugar onde as pessoas trocavam segredos com a mesma facilidade com que passavam seus cartões de crédito.
Eu vinha aqui havia três meses, parando no mesmo balcão todos os dias. Claro que meu propósito não era só fazer compras.
Eu estava procurando alguém.
"Senhorita Graves, você já viu tantas peças. Ainda não encontrou nada do seu gosto?"
"Senhorita Graves?"
Minha loba, Lily, me puxou de volta para a realidade. A maioria dos membros da alcateia me conhecia como Luna Green, mas para o bem dessa pequena encenação, eu havia me registrado no diretório VIP com meu sobrenome de solteira.
Pisquei, apontando para um colar simples de diamantes na vitrine.
"Vou levar este. Por favor, embrulhe."
A vendedora soltou um suspiro sutil de alívio. "Claro. Será uma honra."
Ela ainda me chamava de SENHORITA, mesmo sabendo que eu era casada. Meu nome nos registros deles nunca tinha sido atualizado, e eu não me dei ao trabalho de corrigir.
"Seu marido deve adorar muito você", outra cliente sussurrou, cheia de inveja. "Comprar joias como se fosse doce."
"Ele deve achar que você é o mundo dele!" a amiga acrescentou.
Sorri do jeito que as mulheres sorriem quando já não têm energia para explicar as ruínas escondidas sob a seda.
Então olhei para a jovem atendente atrás do balcão.
Belinda White.
Ela se movia com cuidado, quase com delicadeza, seus dedos finos embrulhando o colar com uma precisão que poderia parecer encantadora se eu não tivesse passado os últimos três meses me ensinando a odiar a simples visão dela. À primeira vista, não havia nada de extraordinário. Ela não era deslumbrante. Não intimidava. Era o tipo de garota que uma sala esquecia no instante em que ela saía—até que, de alguma forma, virava a única coisa que um homem não conseguia esquecer.
E as mãos dela.
Era isso que eu reparava toda vez.
Mãos macias, claras, imaculadas, do tipo que nunca esfregaram sangue de um chão de pedra depois de um treino da alcateia, nunca amassaram massa para cinquenta convidados porque a mesa de uma Luna tinha que ser perfeita, nunca racharavam de frio ou se abriam pelo trabalho. Mãos que não tinham conquistado nada, e mesmo assim conseguiram se fechar ao redor do que era meu.
Olhei para os meus próprios dedos, para a leve aspereza que ainda existia sob todo o cuidado, para as mãos que trabalharam, sangraram, carregaram, sustentaram, serviram. Eu não tinha nascido como a Luna de Stephen. Eu lutei para conquistar esse papel e lutei ainda mais para continuar sendo digna dele.
Belinda era humana. Ela não sabia nada sobre lobos, sobre laços de companheiros, sobre a Deusa da Lua, sobre o peso silencioso que vinha ao ficar ao lado de um Alfa fingindo força mesmo quando seus ossos doíam de sustentar o mundo dele. Stephen tinha escondido tudo dela—seu lobo, seu posto, suas responsabilidades, a verdade sobre quem ele realmente era.
E mesmo assim ela tirou algo de mim.
Isso era o que mais me corroía por dentro—não a juventude dela, nem sua beleza, mas a facilidade da existência dela. Eu tinha derramado sete anos de sangue, paciência, orgulho e obediência para me tornar a Luna perfeita, enquanto ela não tinha feito absolutamente nada além de existir lindamente no lugar certo, na hora certa, e de alguma forma isso bastou para que meu companheiro esquecesse seus votos.
"Senhorita Graves?" A voz de Belinda me puxou de volta. Sua testa se franziu. "Tem mais alguma coisa que eu possa fazer por você?"
Tirei a aliança do dedo e a coloquei sobre o balcão. "Derreta isso."
A atendente congelou. "Mas… essa é sua aliança de casamento. Ela até tem uma inscrição..."
"A & S."
Stephen tinha esculpido aquelas letras ele mesmo. Eu me lembrava do calor das mãos dele naquele dia, da sinceridade trêmula em sua voz, do jeito como ele beijou meus dedos como se estivesse selando uma promessa sagrada, e não gravando uma mentira no ouro.Belinda engoliu em seco. "Tem certeza de que quer destruir isso?"
Eu encarei as duas cartas como se fossem um contrato vencido
"Derrita." Minha voz permaneceu firme. "Com certeza."
Quando cheguei em casa, o sol já tinha se escondido atrás da serra
Eu mal tinha entrado quando Stephen veio correndo na minha direção. Nós trombamos, quase caí, mas a mão familiar dele segurou minha cintura
A mesma mão que um dia me fez sentir segura agora fazia minha pele arrepiar de repulsa
"Onde você estava? Por que demorou tanto?" A voz dele parecia preocupada, mas havia um traço de cobrança ali
O suor brilhava na testa dele sob a luz quente do corredor
Aquela voz antes me acalmava, mas agora só me deixava tensa
Ele ainda se comportava como o companheiro perfeito, fingindo que nada tinha mudado
"Luna Aria, ficamos desesperados," Emma, a governanta, se apressou em explicar. "Quase chamamos a polícia."
O Beta de Stephen, Enzo, soltou um suspiro de alívio, murmurando no telefone
"Oficial Walter? A senhora Green acabou de chegar. Obrigado por conferir."
Então eles realmente tinham ligado
Eu até ri, mas só por dentro, porque agora eu conhecia bem demais meu marido para confundir pânico com devoção. Ele não temia que eu tivesse me machucado. Ele temia que eu tivesse sumido tempo suficiente para as pessoas fazerem perguntas, e se as pessoas fizessem perguntas, surgiriam fofocas, e se as fofocas começassem, a imagem perfeita que ele vestia como uma armadura cerimonial poderia começar a rachar
Stephen passou os dedos pela minha bochecha, a palma quente e com um leve cheiro de sândalo, um aroma que eu já tinha associado a segurança e sono
Agora parecia fumaça nos meus pulmões
"Por que não atendeu o telefone?" ele murmurou. "Pensei que tivesse acontecido alguma coisa."
Eu quase conseguia ver aquela mesma mão no pulso de outra mulher. Enroscada no cabelo de outra mulher. Pousada, íntima e possessiva, sobre a pele humana macia que ele achou que eu nunca descobriria
O amargor subiu pela minha garganta
Dei um passo atrás. "Eu precisava de ar. Meu celular morreu."
Ele franziu a testa na mesma hora, tirou o próprio casaco e colocou sobre meus ombros antes que eu pudesse recusar. "Não pega frio."
A voz dele era suave. Os gestos eram cuidadosos. A preocupação, perfeitamente sincronizada
E era isso que tornava tudo tão repugnante
Ele ainda lembrava que eu odiava o frio, mesmo sendo o motivo de eu ter começado a me sentir congelada por dentro
Caminhei mais para dentro da casa sem agradecer. Ele veio logo atrás
"Emma," ele disse por cima do ombro, "traga cidra de maçã quente. E os favoritos da Aria."
Quando ficamos a sós na sala, ele abaixou a voz, como se fôssemos compartilhar algo íntimo
"Desculpa pelo jeito que falei antes. Eu estava preocupado com você."
"Estou bem."Os olhos dele ficaram presos em mim, atentos demais, calmos demais. "Você não tem parecido feliz ultimamente. Eu fiz alguma coisa errada?"
"Não."
Ele se aproximou, reduzindo a distância com a confiança de um homem que jamais imaginou ser rejeitado. "Aria, estamos juntos há sete anos. Eu te conheço. Eu sei ler você. Seja o que for, me diga e eu vou resolver."
Resolver
Como se traição fosse um problema de agenda. Como se um casamento pudesse ser remendado pelas mesmas mãos suaves que o tinham rasgado
Olhei para ele. Stephen sempre soube soar sincero. Era um dos seus dons mais perigosos. Ele conseguia fazer devoção soar como autoridade, fazer promessas parecerem proteção, transformar uma prisão em algo tão macio e bonito que, quando você percebia que estava presa, já tinha começado a agradecer pelas paredes
"Não é nada", falei, displicente
Ainda preocupado, ele fez uma ligação. "Cancelem minhas reuniões. Vou tirar a semana de folga. Minha Luna precisa de mim."
Eu ri baixinho, um som curto e cortante que ficou suspenso no ar como vidro quebrado
"Eu deveria estar sorrindo, com um companheiro tão atencioso."
Ele pareceu aliviado, achando que eu estava agradecida
Ele não percebeu que meus dedos tremiam, não de emoção, mas da raiva que eu tentava esconder
"E você?" perguntei. "Tem algo que queira me contar?"
Ele se inclinou para me beijar. "Sete anos juntos. Já está na hora de nós..."
O celular dele vibrou antes que pudesse terminar. A luz da tela cortou o cômodo
Por um segundo, vi um olhar suave nos olhos dele, mas não era para mim
"Preciso atender, Aria", disse com um sorriso enquanto se afastava
Alguns minutos depois, fui até a garagem e liguei o carro
A tela no painel acendeu, e eu vi que a conta de WhatsApp dele ainda estava conectada
Um nome apareceu na tela. Era Belinda White
"Aquela mulher rica voltou hoje! Eu amo ela!" dizia a mensagem
Stephen: Você parece animada
Belinda: Claro! Queria que aquela mulher rica fosse na loja todo dia! Ela é minha cliente favorita
Stephen: Eu também passava na sua loja todo dia. Não mereço o mesmo tratamento
Belinda: Você é diferente. Ela é minha cliente VIP
Stephen: E eu sou o quê, então
Belinda: Hmm... relembra seu nome pra mim? Enfim, ninguém vai me impedir de virar uma mulher de carreira de sucesso
Stephen: Então eu sou descartável
Belinda: Haha! Sabe de uma coisa? Vamos falar por ligação. Aquela mulher rica experimentou dez colares hoje, minhas mãos estão tão cansadas
Stephen: Tá bom.Meu aperto no volante foi se intensificando devagar
A garagem estava silenciosa, exceto pelo leve ronronar do motor
Abri meus contatos e liguei para um número que eu tinha guardado exatamente para este momento
A linha conectou quase imediatamente
"K Investigations."
Minha voz, quando saiu, estava mais fria do que eu esperava, mais fria até do que a parte de mim que tinha ficado na joalheria vendo minha aliança de casamento virar sucata
"Quero tudo sobre Belinda White até hoje à noite — família, histórico, dívidas, hábitos, relacionamentos. E continue vigiando Stephen Green. Quero cada movimento registrado. Cada encontro. Cada mentira."
Uma breve pausa
Depois: "Entendido."
Encerrei a chamada e me recostei no banco, fechando os olhos por um instante. Lily estava silenciosa dentro de mim — não acalmada, não curada, apenas à espera. Eu também
Quando abri os olhos de novo, eu estava sorrindo
Não porque a dor tivesse passado
Mas porque agora eu sabia exatamente por onde começar
"Se esconda o quanto quiser, Stephen", sussurrei na escuridão. "Vamos ver quanto tempo você consegue ficar escondido."



