POV de Kyra
Casar com o melhor amigo era uma bênção?
Eu não sabia o que Nathan pensava a respeito. Para mim, porém, ser sua companheira escolhida tinha sido a realização de um sonho. E agora, por mais milagroso que parecesse, teríamos nosso primeiro filhote.
— Parabéns, Luna Kyra — anunciou a médica da alcateia, sorrindo ao notar meu espanto. — Em breve, receberemos o primeiro herdeiro Alfa da nossa alcateia.
Levei a mão à barriga sem nem perceber. Ainda não conseguia acreditar que havia um filhote crescendo ali.
Eu tinha ouvido direito?
Estava grávida?
Grávida do filhote de Nathan!
Depois de três anos como Luna, finalmente carregava o herdeiro do meu companheiro, o futuro da Alcateia Nightfall.
— Sylvia — sussurrei para minha loba. — Vamos ser mães.
Ela se agitou dentro de mim e me envolveu com sua presença calorosa e protetora.
Quando saí do hospital, mal podia esperar para contar a Nathan sobre nosso filhote. Como ele reagiria? Uivaria de felicidade? Me beijaria?
Deusa, eu mal conseguia me conter.
Cobri o rosto afogueado, perdida naquela fantasia. Então senti o metal frio da aliança no dedo, e a euforia diminuiu.
Quase tinha me esquecido de que Nathan não era exatamente alguém que sonhava em ter filhotes. Ainda mais porque nosso casamento tinha sido arranjado pelas nossas famílias.
Nossas famílias eram amigas havia muitos anos, e a união também fortaleceu a aliança entre as alcateias Nightfall e Raven Shadow.
Nathan sempre tinha sido um verdadeiro cavalheiro, tanto como amigo quanto como companheiro. Até quando fazíamos sexo, era atencioso, mas cauteloso. Nunca me marcou.
Sem mordida de marcação. Sem vínculo permanente.
Ele dizia que não havia necessidade de nos prender mais enquanto ainda não estivéssemos prontos.
De certa forma, aquele filhote não fazia parte dos planos.
Minha mente se encheu de dúvidas assim que entrei no carro.
Será que Nathan realmente consideraria aquilo uma boa notícia?
"Você está surtando", murmurou Sylvia em minha mente. "Pare de pensar demais. Ele é seu companheiro. Vai ficar feliz."
— Luna Kyra, está tudo bem? Quer que eu entre em contato com o Alfa Nathan pelo elo mental? — perguntou Luke, meu motorista particular e um guerreiro leal da alcateia do meu pai.
Luke era de confiança. Praticamente da família. Mesmo assim, se eu fosse dividir a notícia com alguém, queria que Nathan fosse o primeiro.
— Não. — Balancei a cabeça e lhe dei um sorriso tranquilizador. — Ele está no avião. Eu mesma falo com ele mais tarde.
Assim, poderia observar sua reação diretamente, sem que tivesse tempo de escondê-la. Eu sempre fui boa em ler suas expressões.
Fechei os olhos, e a lembrança do dia em que conheci Nathan voltou à minha mente.
Depois que meu pai se casou novamente, eu nunca consegui me dar bem com meu irmão postiço, Kieran Carver. Ao contrário da mãe, uma mulher gentil e bonita, Kieran parecia feroz e brutal. Tinha os braços cobertos de tatuagens, e as cicatrizes nos antebraços deixavam claro que já tinha se envolvido em brigas sérias.
Pior ainda: ele sempre agia como se me odiasse.
Me encarava quando eu ria. Zombava dos meus hobbies. Às vezes, porém, eu o pegava me observando quando pensava que eu não estava vendo.
Era estranho.
Para escapar daquela casa, pedi transferência para outro colégio.
Vi Nathan no corredor entre as aulas logo no meu primeiro dia. Sob a luz do sol, seu sorriso parecia ainda mais deslumbrante.
Muito antes de nos tornarmos melhores amigos, eu já tinha me apaixonado por ele à primeira vista. Mas o sentimento não era correspondido. Eu sabia muito bem disso.
No colégio, todos me viam como uma nerd sem graça. Nathan Anderson, por outro lado, era o quarterback talentoso e popular. Ninguém entendia como podíamos ser amigos.
Mesmo enfrentando tanta hostilidade, eu adorava ficar perto dele. Aos poucos, percebi que não queria ser apenas sua amiga.
Quando finalmente criei coragem para confessar o que sentia, Nathan encontrou sua companheira predestinada.
Balancei a cabeça para afastar aquelas lembranças dolorosas. Apertei a aliança no dedo e me lembrei de que o passado tinha ficado para trás.
Nathan disse que tudo entre eles tinha acabado.
Agora eu era sua esposa.
Enxuguei as lágrimas que se acumulavam nos cantos dos olhos e abri a porta da nossa casa. Assim que respirei aquele cheiro familiar, consegui me acalmar.
Eu estava pensando demais.
Aquela mulher tinha saído das nossas vidas havia muito tempo, e meu casamento com Nathan era tão lindo quanto um conto de fadas.
Olhei para o relógio na parede. A essa altura, ele já deveria ter desembarcado. Estava viajando havia mais de um mês para cuidar dos negócios da alcateia.
Nathan era o presidente da ADE, e eu, a vice-presidente. A Alcateia Nightfall administrava a empresa, uma revista de moda sofisticada voltada para o mundo humano. Nossa equipe secreta cuidava dos assuntos da alcateia nos bastidores, enquanto o setor de moda oferecia a cobertura perfeita.
Alguns dos nossos melhores modelos e estilistas eram lobisomens que se misturavam sem dificuldade à sociedade humana. É claro que, comparados aos humanos, ainda possuíamos muitas habilidades únicas.
"Nathan, mais ou menos que horas você chega em casa? Tenho uma novidade para contar."
Enviei a mensagem pelo elo mental, mas ele não respondeu.
Depois de um mês longe, eu sentia muita falta dele.
Liguei imediatamente. Queria ouvir sua voz, saber quando chegaria. Prepararia uma refeição especial e, em troca, ele me daria um beijo doce. Depois, poderíamos fazer sexo com a mesma paixão da noite anterior à viagem dele.
Opa.
Quase tinha me esquecido de que estava grávida. Precisava contar a novidade primeiro. Depois, poderíamos fazer outra coisa.
Eu imaginava nosso reencontro, feliz, quando uma voz feminina atendeu à ligação.
[Alô?]
O celular escapou da minha mão.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
Não.
Não podia ser ela.
Não podia ser Sophia!
Ela já tinha saído das nossas vidas. Eu só podia ter ouvido errado.
De repente, todas as lembranças ruins do colégio voltaram.
Nathan tinha se transformado aos dezoito anos. Seu lobo, Alaric, soube de imediato que Sophia Gilbert era sua companheira predestinada.
Sophia era a típica loira estonteante que fazia os homens perderem a cabeça. A líder de torcida mais popular do colégio, enquanto Nathan era o quarterback estrela.
Uma combinação muito melhor do que ele e uma nerd como eu, certo?
Eu nunca soube por que Sophia me odiava tanto. Talvez porque eu estivesse sempre ao lado de Nathan.
— Ah, vejam só. É o caso de caridade do Nathan — dizia sempre que eu passava, enquanto as amigas riam atrás dela.
Certa vez, ela me trancou em uma cabine do banheiro e deixou as amigas jogarem água gelada por cima da porta. Fiquei ali, tremendo dentro das roupas encharcadas, enquanto elas riam.
Em outra ocasião, Sophia me deu um tapa tão forte que deixou uma marca vermelha no meu rosto. Foi "sem querer".
— Opa. — Ela abriu um sorriso falso. — Esqueci que nerds ficam com hematomas facilmente.
O pior aconteceu quando elas me cercaram no corredor depois da aula de educação física.
— Você realmente acha que ele gosta de você? Você nem tem sua própria loba.
Sophia estalou o chiclete e chegou tão perto que senti seu cheiro.
— Ele só fala com você porque o avô dele o obrigou.
Uma das amigas dela arrancou meus óculos.
— Quantos dedos estou mostrando, sua cega?
Tentei recuperá-los, mas Sophia segurou meu pulso e cravou as unhas na minha pele.
— Fique longe dele — ameaçou, entre os dentes. — Ou, da próxima vez, não serão apenas seus óculos que vão quebrar.
Elas me abandonaram ali. Com a visão embaçada, precisei tatear o chão até encontrar meus óculos rachados.
Quando contei a Nathan o que Sophia tinha feito e dito, ele apenas riu.
— Você ainda não tem sua loba porque não chegou a hora. Quando fizer dezoito anos, ela vai aparecer. Eu estarei ao seu lado para ajudar você durante a primeira transformação.
Ele bagunçou meu cabelo como se eu fosse uma filhotinha boba.
— Sophia só está brincando. Não leve isso a sério.
Mas eu levei.
Sempre que Sophia se sentava com ele no almoço, "acidentalmente" derramava alguma bebida nos meus livros. Quando eu passava por ela, sussurrava:
— Ele é meu.
E, toda vez que Nathan não estava olhando, me lançava aquele sorriso cruel. Como se sentisse prazer em me machucar onde ele não pudesse ver.
Meu orgulho não suportava continuar sendo intimidada daquele jeito enquanto meu melhor amigo se apaixonava por uma vadia como ela. Tentei me afastar daquela situação em silêncio, mas Nathan se recusava a sair da minha vida.
Eu me afundava nos livros e nos estudos para tentar esquecê-los. Ainda assim, ele aparecia à minha porta e me convidava para sair.
Nunca conseguia resistir ao seu sorriso encantador. Muito menos quando afirmava que, como meu melhor amigo, tinha a obrigação de me mostrar o mundo real.
Para não destruir nossa amizade, escondi o coração partido. Continuei ao lado dele, fazendo em silêncio o papel de melhor amiga e observando o quanto Sophia o fazia feliz.
Quando soube que Nathan planejava pedi-la em casamento, finalmente reuni coragem para estudar no exterior.
O que eu jamais esperava era receber uma ligação da avó dele, implorando que eu voltasse.
Voltei às pressas e encontrei um Nathan destruído. Alaric, seu lobo, tinha mergulhado num silêncio assustador.
Sophia tinha destruído o coração dele.
Aquele garoto luminoso não existia mais, e meu próprio coração sangrou por ele.
Eu odiava Sophia Gilbert.
Aquela maldita vadia!
Nathan não contou a ninguém o que tinha acontecido. Disse apenas que ele e Sophia tinham terminado. Sua avó me implorou para criar um vínculo com ele e, assim, estabilizar a alcateia.
Só entendi por que ele tinha aceitado quando o ouvi dizer:
— Agora não importa quem eu escolha como Luna.
Para Nathan, casar-se com qualquer mulher que não fosse Sophia dava no mesmo.
Aquilo me partiu por dentro.
Mesmo assim, entrei naquele casamento sem pensar duas vezes. Meu querido garoto estava destruído, e eu queria consertá-lo. Não me importava se acabasse me destruindo no processo.
Adormeci em casa, consumida pela insegurança e pela preocupação. No meio da noite, acordei ao sentir alguém acariciar meu rosto.
Abri os olhos devagar e percebi que tinha pegado no sono na sala.
Alguém me ergueu do sofá. O cheiro de menta de Nathan me envolveu, mas havia algo por baixo dele.
Cereja.
Olhei para ele, ainda sonolenta.
— Nathan...
— Hmm — murmurou enquanto seguia em direção à escada. — Por que você dormiu no sofá?
Continuei observando seu rosto quando ele me colocou delicadamente na cama. Nathan acariciou meu cabelo e beijou minha testa. Sylvia soltou um som baixo de satisfação dentro de mim.
Estávamos separados havia mais de um mês. Meu corpo sentia falta dele.
Meu coração ansiava por ele.
— Onde você estava? Fiquei esperando por você.
Toquei o rosto dele.
— Só fui encontrar uma amiga. Você disse que estava esperando por mim — aconteceu alguma coisa?
Diante daquela expressão gentil, perdi a coragem de estragar o momento. Fechei a boca e engoli a verdade.
Balancei a cabeça, fiz bico e disse que estava com sono.
Nathan soltou uma risada baixa e me acomodou com cuidado. Depois de me dar um beijo de boa-noite, fez menção de sair.
Por algum motivo, entrei em pânico.
Agarrei-o depressa e o beijei com toda a paixão que tinha guardado durante aquele mês. Tentei tirar sua roupa. Queria que ele me tocasse cada vez mais fundo.
Eu sentia falta dele.
Eu o queria.
Só conseguiria me acalmar se ele me possuísse outra vez. Precisava ter certeza de que ainda era meu.
— Espere, Kyra.
Nathan segurou minhas mãos com delicadeza contra a cama para me deter.
— Pensei que você estivesse com sono e precisasse descansar.
— Mas acho que agora só consigo pensar no quanto senti sua falta.
Olhei para ele com a expressão mais inocente que consegui. Vi o desejo brilhar em seus olhos, mas não entendi por que desapareceu tão depressa.
Nathan costumava gostar quando eu tomava a iniciativa.
Dessa vez, não sorriu.
Soltou um suspiro profundo, afastou meu cabelo do rosto e o prendeu atrás das orelhas. Depois, segurou minha mão e me encarou.
— Tenho uma coisa para contar.
Meu coração acelerou.
Pensei no filhote em meu ventre.
Ele tinha algo para me contar.
Eu também tinha algo para contar a ele.
— O-o que foi? — perguntei, a voz trêmula.
Nathan respirou fundo.
— Você sabe que é importante para mim, não sabe?
Assenti devagar.
Não consegui responder. Estava com medo do que ele diria. Uma sensação ruim se instalou dentro de mim.
— Você era minha melhor amiga antes de nos casarmos. É uma das poucas pessoas que importam para mim...
Eu não entendia por que ele estava dizendo aquilo, mas as lágrimas já se acumulavam em meus olhos.
— Kyra...
Nathan fez uma pausa e fechou os olhos com força. Quando voltou a me encarar, sua expressão tinha mudado.
— Eu... acho que chegou a hora de terminarmos nosso casamento. Você pode rejeitar nosso vínculo?
— N-Nathan...
Meu coração se apertou.
Ele sorriu.
— Eu sei que você também não sente nada por mim. Só se casou comigo por causa dos meus avós. Fez isso porque os ama. Agora chegou a hora de buscarmos nossa verdadeira felicidade, Kyra.
Balancei a cabeça.
— D-do que você está falando, Nathan?
— Sophia voltou, Kyra. Minha companheira predestinada voltou.



