A lua estava cheia quando Mira Whitmore voltou para a Mansão Ravencrest. Ela conferiu seu ciclo três vezes antes de dirigir do centro médico, onde ficou até tarde. A ovulação alcançava seu pico naquela noite — uma breve janela de fertilidade que se tornara o único motivo pelo qual seu marido vinha para casa ultimamente.
A mansão imponente surgia contra o céu noturno, toda de pedra escura e janelas ainda mais escuras. Apenas o quarto principal resplandecia com uma luz acolhedora. Kieran já estava lá, esperando. Claro que estava. Selene teria o lembrado. A mãe dele controlava o ciclo de Mira mais atentamente do que a própria Mira.
Mira estacionou seu carro modesto ao lado do SUV preto e elegante de Kieran e ficou sentada por um momento, ainda segurando o volante. Pelo para-brisa, ela podia ver a janela iluminada. Seu quarto. O quarto deles. Embora não tivesse aquela sensação de “deles” há anos.
É só passar por essa noite, ela se disse. Talvez desta vez seja diferente.
Ela afastou o pensamento. Quatro anos de “talvez” não haviam mudado nada até agora.
A casa estava silenciosa quando ela entrou, seus passos ecoando no chão de mármore. O mordomo, Fletcher, surgiu das sombras com sua pontualidade impecável de sempre.
"Luna," ele cumprimentou com um aceno respeitoso. "O Alfa está no andar de cima."
"Obrigada, Fletcher."
Ela subiu a imponente escada, cada degrau mais pesado que o anterior. A porta do quarto principal estava entreaberta, a luz se espalhando pelo corredor. Mira empurrou-a.
Kieran estava junto à janela, telefone colado ao ouvido, de costas para ela. Já estava vestido com calças de dormir e nada mais, os ombros largos tensos. Mesmo do outro lado do quarto, Mira podia sentir a energia inquieta de seu lobo — impaciente, compelido pelo dever, querendo que tudo acabasse logo.
"Te ligo de volta," Kieran disse ao telefone, a voz baixa e calorosa de um jeito que não era mais com ela. Ele terminou a ligação sem esperar uma resposta e finalmente se virou para encará-la.
O Alfa Kieran Ravencrest era indiscutivelmente belo. Cabelos escuros, traços marcantes, olhos que mudavam de cinza para dourado dependendo da proximidade de seu lobo à superfície. Quando se conheceram há seis anos, Mira se achava a mulher mais sortuda do mundo por ser escolhida como sua parceira.
Agora ela se sentia apenas cansada.
"Você está atrasada," ele disse, olhando para o relógio.
"Eu tive uma emergência com um paciente. Uma criança com uma reação alérgica grave. Não podia simplesmente ir embora."
"Você é uma curandeira, não uma médica. Outros poderiam ter lidado com isso."
Mas eu sou a melhor, Mira quis dizer. Em vez disso, ela não disse nada e foi em direção ao banheiro.
"Não demore muito," Kieran chamou atrás dela. "Tenho que acordar cedo."
Claro que tinha. Ele sempre tinha outro lugar pra ir.
Mira tomou um banho rápido, tentando lavar a sensação de que estava se preparando para uma transação em vez de um momento íntimo com o marido. Quando saiu de camisola, Kieran já estava na cama, mexendo no telefone com uma leve expressão de desagrado.
Ele levantou o olhar quando ela se aproximou, e por um momento—tão breve que ela podia ter imaginado—algo brilhou em sua expressão. Reconhecimento, talvez. Ou a memória do que eles já foram.
Então desapareceu.
"Vem cá," ele disse, colocando o telefone de lado.
Mira deslizou para a cama ao lado dele, e Kieran a puxou com eficiência habitual. Suas mãos eram familiares, mas não gentis, seu toque hábil, mas não carinhoso. Ele sabia exatamente como preparar seu corpo para o que viria a seguir—quatro anos de encontros programados o tornaram eficiente.
Mas eficiência não era a mesma coisa que desejo.
O ato em si foi rapidamente misericordioso. Kieran sempre foi atencioso com o conforto físico dela, mesmo tendo se tornado indiferente a todo o resto. Quando terminou, ele se afastou imediatamente, respirando de forma controlada.
Mira ficou imóvel, olhando para o teto, sentindo o vazio familiar que vinha após esses encontros.
Houve um tempo em que eles ficavam entrelaçados, conversando e rindo até o amanhecer. Agora o silêncio era tão pesado que doía respirar.
Kieran se levantou sem dizer uma palavra e foi para o banheiro. Mira ouviu a água correndo, os sons dele lavando-a de sua pele. Quando saiu, já estava quase totalmente vestido.
"Não esquece de fazer o teste de gravidez," ele disse, abotoando a camisa com movimentos rápidos. "Me avise imediatamente se der positivo."
"Onde você vai?" A pergunta escapou antes que Mira pudesse se conter.
"De volta para a cidade." Kieran não a olhou enquanto apertava o cinto. "Tenho reuniões amanhã."
Reuniões. Era assim que ele chamava o tempo que passava com Astrid Sinclair, sua amante. A loba com quem ele se envolvia abertamente há três anos, cuja existência todos na alcateia conheciam, mas fingiam não ver.
Mira se apoiou nos cotovelos. "Kieran—"
"O quê?" Ele finalmente olhou para ela, e a impaciência nos olhos dele apertou o peito dela.
"Podemos... podemos conversar? Sobre a gente?"
"A gente?" Kieran franziu a testa como se o conceito o confundisse. "O que tem a gente?"
"Nosso casamento. A gente nunca se vê mais. Você só vem pra casa quando—" Ela gesticulou desamparada na direção da cama entre eles.
"Quando é hora de tentar um herdeiro," Kieran completou de forma abrupta. "Sim. Isso é a prioridade agora."
"Mas e depois? E se eu engravidar? As coisas vão mudar?"
Por um longo momento, Kieran apenas a encarou com aqueles olhos cinzentos e frios. Então, ele pegou a jaqueta da cadeira e a vestiu.
"Se você me der um filho," ele disse cuidadosamente, "então podemos discutir o que vem a seguir. Até lá, não vejo sentido nesta conversa."
Se você me der um filho. Não "quando tivermos um filho juntos." Não "quando nossa família crescer." Apenas mais uma transação. Mais um dever a cumprir.
"E se for outra filha?" Mira sussurrou.
O maxilar de Kieran se apertou. "Vamos torcer para que não seja."
Ele se dirigiu à porta, e o desespero tomou conta do peito de Mira.
"Kieran, por favor. Não podemos pelo menos tentar—"
"Eu estarei em casa no próximo mês", ele interrompeu, sem se virar. "Mesmo horário. Certifique-se de estar aqui."
Então ele se foi, e a porta fechou com um clique suave que soou como uma cela se trancando.
Mira sentou-se na grande cama vazia, cercada por lençóis de seda sem cheiro, em um quarto que nunca foi um lar. Lentamente, ela pegou o celular na mesinha de cabeceira. Seus dedos se moviam no modo automático, abrindo o aplicativo de redes sociais, digitando o nome que havia memorizado contra sua vontade.
O perfil de Astrid Sinclair carregou—sempre público, como se ela quisesse mostrar ao mundo sua felicidade. A última publicação era de vinte minutos atrás. Uma foto de uma taça de champanhe captando a luz das velas, a borda de uma mão masculina visível do outro lado da mesa. A legenda dizia: "Finais perfeitos para dias perfeitos ✨"
A postagem já tinha dezenas de curtidas. Mira rolou a tela para baixo, torturando-se com as provas da vida real de seu marido. Astrid em encontros de grupo aos quais Mira não era convidada. Astrid rindo em restaurantes que Kieran nunca levou Mira. Astrid usando joias que Mira reconhecia da boutique favorita de Kieran.
Uma vida em cores vibrantes, enquanto Mira existia em tons de cinza.
Seu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido. Mira a abriu e imediatamente desejou não ter feito isso.
Ele diz que você tem olhos bonitos quando chora. Ele te faz chorar muito?
A mensagem não tinha assinatura, mas Mira sabia que era de Astrid. Não era a primeira vez que a outra mulher enviava pequenos lembretes cruéis de quem realmente importava para Kieran.
Mira apagou a mensagem e largou o telefone com as mãos trêmulas. Ela deveria sentir raiva, não deveria? Coração partido? Algo quente, afiado e vivo?
Em vez disso, ela só sentia uma dormência.
Seus olhos caíram sobre o balcão do banheiro, onde três testes de gravidez esperavam. Ela os havia comprado no caminho para casa, sempre preparada, sempre obediente.
Mas enquanto os encarava, algo despertou em sua memória. A fadiga que a atormentava há semanas. A náusea que ela havia escondido durante as rondas matinais. A forma como seu corpo parecia diferente, mudado.
Ela suspeitava. No fundo, ela sabia.
Mira foi ao banheiro e desvendou um dos testes, seguindo a rotina familiar. Enquanto esperava o resultado, ela se pegou olhando seu reflexo no espelho. Quando foi que ela começou a parecer tão abatida? Quando foi que a luz em seus olhos se apagou?
O alarme no seu celular tocou. Mira olhou para o teste em sua mão.
Duas linhas rosas.
Positivo.
Ela suspeitava há semanas — a fadiga, a náusea que ela vinha escondendo. Mas ver isso confirmado tornava tudo assustadoramente real.



