Ponto de Vista da Aisha
Meu coração doía enquanto eu pressionava o pano contra o ferimento do filhote, tentando estancar o sangramento. O choramingo contínuo dele fazia meu peito apertar ainda mais.
"Vai ficar tudo bem," murmurei, tentando assegurar enquanto apertava a bandagem. "Você vai melhorar."
Assim que me afastei, a mãe dele me empurrou com tanta força que caí no chão com um baque doloroso.
"Saia de perto dele!" ela rosnou, com os olhos brilhando de desdém. "Acha que pode ajudar se nem tem um lobo?"
Engoli seco com a dor das palavras dela. Discutir era inútil. Ninguém nessa alcateia confiava em mim, não importava o que eu fizesse. Fiquei no chão, com os dedos tocando o frio do azulejo, me forçando a não reagir. Se eu fizesse isso, só lhes daria mais motivos para me detestarem.
"Mãe..." A voz do filhote era baixa, mas a mãe ouviu. Ela se virou bruscamente, provavelmente esperando mais gemidos de dor. Em vez disso, ele estava olhando para o próprio ferimento com os olhos arregalados. "Está... curado."
Um silêncio se abateu sobre o ambiente. A mãe dele hesitou antes de arrancar a bandagem.
Um suspiro agudo foi ouvido. O profundo corte agora era apenas uma cicatriz. Ela se virou para mim, com a desconfiança estampada no rosto. "O que você fez?"
Não respondi. Eu mesma não tinha certeza. Havia feito o mesmo de sempre: limpei, enfaixei e acalmei o paciente. Mas não estava prestes a reivindicar crédito, não quando isso só traria mais escrutínio.
Antes que ela pudesse insistir, o chefe do centro médico da alcateia chegou.
Seu olhar afiado foi do filhote curado para mim e se estreitou.
"Curioso," ele murmurou. "Mas não importa. Se não fosse pelo aumento dos ataques à alcateia e seu trabalho barato, você nem seria permitida neste hospital."
Baixei a cabeça, segurando uma resposta mordaz. Em breve. Em breve, eu estaria livre deste lugar.
Horas depois, após cuidar do último lobo ferido, finalmente fui liberada para ir embora. Assim que pisei lá fora, o ar fresco da noite encheu meus pulmões, oferecendo o único alívio que tive o dia todo. Caminhei de cabeça erguida, meus pensamentos vagando para uma verdade que nunca consegui compartilhar.
Eles achavam que eu era um Ômega. Fraco. Inútil. Mas eu tinha me transformado aos quatorze anos, dois anos antes até do mais forte Alfa. Meu lobo era mais poderoso do que qualquer um deles podia imaginar.
E ninguém poderia jamais descobrir isso.
April me fez jurar que manteria segredo. "Ainda não," ela advertiu com seu tom mais sério, "Eles vão te temer, e o medo torna as pessoas perigosas." Eu confiava nela, por isso guardei esse segredo, mesmo odiando ter que fingir ser impotente.
Agora, estava pagando o preço.
Cheguei em casa, se assim posso chamar. Uma estrutura fria e vazia onde a crueldade me dava as boas-vindas logo na porta. No momento em que entrei, um tapa forte ecoou na minha bochecha.
A dor floresceu enquanto a filha da minha madrasta, Lisa, zombava de mim. "Você está atrasado," ela sibilou, suas unhas cravando no meu braço enquanto me empurrava para trás.
Sangue escorria do canto da minha boca, mas me recusei a reagir. Isso só iria dar mais prazer a ela.
Com um movimento lento e deliberado, ela pegou o prato de comida da mesa. Meu estômago revirou em antecipação, já sabendo o que aconteceria em seguida.
Um sorriso cruel curvou seus lábios antes que ela jogasse toda a comida direto no lixo.
"Ups." Ela jogou seus cabelos dourados por cima do ombro. "Parece que você vai ter que tentar estar na hora certa amanhã."
Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas se cravaram nas palmas das mãos. Minha madrasta assistiu à cena se desenrolar com sua habitual indiferença. "Limpe isso," ordenou, sua voz sem um pingo de calor.
Nem um olhar de preocupação. Nem um vestígio de reconhecimento pelo meu cansaço. Apenas mais uma ordem a ser obedecida.
Forcei meus pés a se moverem, ajoelhando-me ao lado da lixeira para pegar a comida descartada. Eu nem sabia mais por que me incomodava. Conseguia sobreviver com restos e já fazia isso há anos. Mas toda vez, a injustiça de tudo isso fazia meu sangue ferver.
Em breve. Em breve, vou ter minha herança e sairei daqui.
Lisa se encostou no balcão, me observando como um gato brincando com um rato preso. "Esteja no horário para o jantar da próxima vez," provocou antes de se afastar.
Resisti à vontade de jogar algo na figura dela se afastando.
Quando terminei o resto das tarefas, meu corpo parecia um peso morto. Desabei na minha cama pequena e gasta, sem forças nem para puxar uma coberta sobre mim.
Então, meu telefone vibrou.
Pisquei, me forçando a sentar. Meu coração saltou quando vi o nome na tela.
Jake.
O Alpha da nossa matilha. Meu namorado secreto.
Uma única mensagem dele fez um calor percorrer meu corpo cansado.
Feliz Aniversário.
Exalei tremendo, um sorriso verdadeiro rompendo meu esgotamento. Ninguém mais tinha lembrado. Ninguém mais sequer se importou. Mas ele lembrou.
Uma segunda mensagem veio em seguida, fazendo meu coração disparar.
Amanhã, vou anunciar você como minha parceira.
Tudo parou.
Li as palavras repetidas vezes, minhas mãos tremendo. Minha respiração travou, uma mistura de empolgação e descrença inundando meu peito.
Amanhã.
Amanhã, tudo mudaria.



