Quando Ava Gray despertou num sobressalto do sufocante torpor da inconsciência, seus olhos deram de cara com um par de olhos gélidos.
Seu pescoço fino estava sendo brutalmente apertado pelo homem a quem aqueles olhos pertenciam.
Ofegante, o medo de morrer — de novo — tomou conta dela. Em pânico, juntou os dedos e acertou o ponto de pressão no pulso do homem.
Ele soltou um gemido de dor e finalmente tirou a mão de sua garganta.
"Cof… cof." Ava levou a mão ao pescoço e tossiu com força, a traqueia ardendo a cada gole de ar que conseguia puxar.
Desgraçado!
Ela era uma curandeira mística de altíssimo nível — capaz de tratar o que a medicina comum não podia, mestre em energia e feng shui, a especialista procurada pelos ricos e poderosos. Quando alguém já tinha ousado tratá-la assim?
Quase assassinada do nada, Ava ficou tão furiosa que levantou a mão e deu um tapa bem no rosto do homem.
Pá!
"Saia de cima de mim!" A voz que respondeu era fria e sem emoção. Isso fez Ava congelar no lugar.
Foi então que ela finalmente percebeu — aquele não era seu quarto. O ambiente tinha um luxo discreto e era totalmente desconhecido.
Pior ainda, ela estava sentada no colo de um homem absurdamente bonito, dono de uma aura afiada e gelada!
Os dois estavam num enrosco de roupas amarrotadas — ombros nus, músculos bem definidos… suficiente para deixar qualquer um corado.
No olhar irritado dele, Ava captou algo que parecia, suspeitosamente, constrangimento.
Uau.
Seu coração deu um solavanco.
Ela estava mesmo… assistindo aquilo de graça?
"Você é repugnante", o homem cuspiu, a voz carregada de desprezo. A marca da mão ainda estampava sua bochecha.
"???" A apreciação casual de Ava sumiu na hora.
Ele ainda tinha a cara de pau de bancar o superior?
Irritada com a atitude dele, ela ergueu a mão para dar outro tapa. "Você se aproveita de mim e ainda reclama?!"
Mas dessa vez, o homem foi mais rápido. Ele desviou com um leve movimento de cabeça. Os dedos dela quase roçaram seu rosto.
Caramba, a pele dele é macia, pensou Ava quando a ponta dos dedos deslizou de leve.
Ele claramente não esperava que ela tivesse ousado bater nele — bom, tarde demais, ela já tinha feito isso.
Com o orgulho ferido, os olhos dele se incendiaram de fúria. "Sarah Gray, encoste em mim de novo e você não vai receber nada."
Sarah?
Não Ava?
O nome rachou algo dentro de sua mente, e uma enxurrada de informações a invadiu.
Quando a avalanche finalmente cessou, Ava olhou para seu corpo agora curvilíneo e exageradamente desenvolvido e apressou-se em puxar o vestido amarrotado para cima.
Sem dizer uma palavra, deslizou do colo agora imóvel dele e se recompôs com calma, fingindo que nada daquilo era estranho.Enquanto seus olhos percorriam a parte de baixo do corpo do homem — quieta e imóvel — ela pensou: “Nem uma reação? Achei que todos os caras fossem movidos por isso. Não me diga que ele… não funciona?”
Esse pensamento suspeito surgiu e sumiu num piscar de olhos.
Ela tinha problemas bem maiores agora.
Afinal, ela tinha caído dentro de uma novela exagerada, onde interpretava a madrasta vilã que armava para ter um filho com o protagonista… e morria antes do terceiro capítulo. A história começava com a Sarah Gray original, depois de bater no fundo do poço, tentando fechar um acordo com Ethan Sinclair — entregar a guarda do filho em troca de dez milhões.
Hoje era o dia de “fechar o negócio”.
Mas Sarah claramente não tinha desistido. Antes mesmo de assinar os papéis, ela fez uma última tentativa de seduzi-lo.
Se conseguisse, não só pegaria os dez milhões — como também viraria a Sra. Sinclair. Aqueles dez milhões poderiam virar um império inteiro.
Quando Ava Gray acordou dentro daquele corpo, foi bem no meio dessa tentativa fracassada de sedução. E sim, ela quase foi estrangulada até a morte.
De acordo com o enredo original, Sarah cedia a guarda por pura birra e pegava o dinheiro, esquecendo completamente que tinha um filho esperando por ela em casa.
Claro que isso não terminava bem. Cobradores de dívida invadiam o lugar atrás dela e, sem encontrá-la, descontavam a raiva no pequeno Liam.
Quando os homens de Ethan chegavam, Liam estava mal respirando.
Furioso, Ethan soltava o inferno — não só sobre quem encostou em Liam, mas sobre Sarah também.
Ele quebrava os membros dela, desfigurava seu rosto, mandava-a para o exterior… e ela nem chegava viva ao destino.
Caramba. Como fui parar no corpo dessa mulher?
Ethan viu o rosto de Ava passar por várias expressões diferentes e perdeu a paciência. “Assina. Pega o dinheiro. Vai embora.”
Pfft.
Ainda amarga por ter tirado o pior bilhete da vida, Ava deu um sorriso torto. Ela lançou um olhar casual para baixo, logo acima das coxas dele, e ergueu os dedos mostrando um espacinho de um centímetro.
“Uau... mínimo.”
O rosto de Ethan fechou na hora. “...”
Ava até tinha ficado tentada a oferecer uma avaliação médica das pernas dele. Ideia completamente idiota, que morreu rápido.
Com aquela atitude? Boa sorte pra voltar a andar.
Desde seu coma de dois anos e seu retorno dramático como chefe do império Sinclair, ninguém jamais tinha ousado humilhar Ethan daquele jeito.
Ela só podia estar procurando encrenca.
Mas antes que Ethan pudesse chamar alguém, Ava já tinha corrido até a janela, subido e pulado para fora com uma facilidade absurda.
Droga!
Ainda bem que era só o primeiro andar. Espero que esse corpo novo não venha com rins ruins.
Ela fez uma careta ao sentir uma fisgada nas costas, mas sumiu pelo jardim sem hesitar.
Precisava voltar para salvar o garoto.
No momento, ela era Sarah Gray. E precisava fechar aquela bandeira de morte original, e rápido.
O resto podia esperar.…
Não muito depois que ela saiu, a equipe de Ethan finalmente irrompeu no quarto, apenas para encontrar o chefe sentado sozinho na cadeira de rodas — rosto carregado, camisa amarrotada e uma marca vermelha estranha ainda na bochecha.
“Sr. Sinclair?” Jacob Bennett, seu principal segurança e assistente pessoal, avançou com cautela.
Ele dispensou os outros com um gesto e lançou um olhar nervoso para Ethan, sem ousar dizer muito.
Ethan não respondeu. Apenas encarou friamente o acordo de custódia ainda sem assinatura.
Sarah Gray, sua mulher maluca…
…
Quinze minutos depois, o táxi parou na periferia decadente.
Ava pagou a corrida e só então percebeu que tinha exatamente ¥16,8 com ela.
"...Nossa. Na miséria total." Ela até se arrependeu de não ter pegado aquele cheque da mesa mais cedo.
Slam.
Ela fechou a porta do carro e entrou nos becos sombrios, seguindo as lembranças de Sarah.
Assim que colocou os pés ali, o ambiente estreito e imundo a fez franzir o cenho. Sarah Gray apressou o passo pelo beco, sem sequer olhar para aqueles olhares sugestivos. No momento em que chegou ao seu andar, viu cinco ou seis pessoas amontoadas na porta do seu quarto alugado.
Isso aí, a bandeira da desgraça tinha sido oficialmente acionada. Suas pupilas se contraíram.
“Sua pirralha! Onde diabos foi parar sua mãe vagabunda? Se ela não pagar, eu vou vender você pra cobrir a dívida!”
“E o meu aluguel? Já faz três meses sem um centavo!”
“Aquela desgraçada me deve trinta mil! Prometeu pagar toda vez que eu cobrei e adivinha? Nada!”
“Fala alguma coisa, moleque, ou eu te arrebento!”
Os berros eram ensurdecedores. Tudo cobradores.
Os olhos de Sarah ficaram frios, mas ela também soltou um suspiro de alívio. Pelo menos chegou a tempo.
“Vocês não podem entrar! Essa é a casa minha e da mamãe!” Uma vozinha feroz gritou por trás da porta entreaberta.
Sarah viu pela fresta — o garotinho segurando o batente, dentes à mostra como um lobinho, fazendo guarda.
Então esse era o filho da Sarah original?
“Essa porcaria é minha propriedade! Entenda de uma vez — se a sua mãe desgraçada não pagar o aluguel hoje, vocês dois estão fora!” A senhoria gorducha ergueu a mão para bater no menino.
Azar o dela — a mão nunca chegou ao destino.
“Minha mão!” ela guinchou, encarando a mulher deslumbrante que prendia seu pulso como se estivesse vendo um fantasma.
“Sarah, sua vadiazinha, como você ousa encostar em mim?!”
Sarah apenas sorriu de lado. “Pra que esse show todo? Falar não bastou, então resolveu bater em criança? Super corajosa, hein?”
Ela soltou a mão dela com calma.
O rosto da senhoria empalideceu. Ela puxou o braço de volta depressa — só ela sabia o quanto estava tremendo e o quanto tinha doído pra caramba quando Sarah a agarrou.Apertando o pulso latejante, ela agora olhava para Sarah com um medo nítido.
Protegendo a pequena à sua frente, Sarah encarou a multidão furiosa.
Ela não pôde evitar xingar por dentro. Agora estava presa sendo a tal da Sarah com toda essa porcaria de dívidas. Que negócio mais roubado.
“Amanhã, a essa hora, eu vou ter o dinheiro”, ela disse, soando muito mais calma do que realmente estava.
Atrás dela, a garotinha levantou o rosto, os olhos cheios de curiosidade. Pena que Sarah não viu.
“Amanhã? Por favor. Acha mesmo que vai me enrolar de novo? Deve até já estar arrumando as malas pra fugir da cidade!”, zombou um cara tatuado.
Sarah abriu um sorriso e puxou o celular. Três botões. 1-1-0.
Antes que conectasse, ela falou: “Não acredita em mim? Super entendo. Mas que tal deixar a polícia ouvir isso e deixar que eles decidam?”
Isso calou todo mundo na hora. Podiam ser uns brutamontes, mas a última coisa que queriam era problema com a polícia. O tatuado fez um gesto de aviso e, resmungando palavrões, puxou o grupo embora.
Vendo-os ir, Sarah suspirou. “Se vocês soubessem que eu tô, na real, salvando a pele de vocês.”
Porque, na história original? Não acabou bem pra ninguém que mexeu com a garotinha.
Com a confusão resolvida, Sarah se virou para a proprietária, cujo rosto parecia pior do que nunca.
“Você precisa ver a sua filha. Agora. Ou, confia em mim, vai se arrepender pro resto da vida.”
Ela esfregou os dedos distraidamente, lembrando do pulso que tinha lido sem querer antes. Por bondade, deu à mulher um aviso raro.



