Eu nunca entendi como as pessoas ficavam animadas, felizes ou tristes. Nunca entendi como elas riam tanto até as lágrimas rolarem, ou como choravam até os olhos incharem. Acho que nunca senti essas emoções antes, nem mesmo quando era criança.
Eu penso que... o que quer que faça as pessoas sentirem coisas como alegria, animação, ou até mesmo tristeza, talvez nunca tenha sido construído em mim. Como um conjunto de células que faltam. Ou talvez só tenha se queimado antes que eu pudesse usar.
As únicas emoções que já senti, que me eram familiares, como velhos amigos, eram ódio, raiva, medo, e desejo – este último desenvolveu-se quando entrei na puberdade, e os outros três… bem, desde que me lembre.
E agora o que eu estava sentindo era raiva. Pura raiva que me fazia tremer.
“O quê?” perguntei à minha mãe, com os punhos cerrados tão forte que minhas unhas penetravam na palma, ferindo a pele. “Você vai se casar?”
“Pois é,” ela respondeu, sorrindo de orelha a orelha enquanto observava o anel de diamante em seu dedo – seu anel de noivado. O diamante tocou o sol e refletiu, brilhando. “Ah! Olhe isso!”
“Mal passou um mês,” lembrei a ela, minha voz tremendo. “O corpo dele acabou de ser enterrado e você já vai se casar de novo?”
O relacionamento dos meus pais nunca foi doce, nunca foi como aqueles outros casais que eu via e que se amavam. Eles brigavam e discutiam o tempo todo, e eu sempre acabava no meio disso. Sempre terminava com eu coberta de hematomas.
Eu os odiava. Tinha medo deles, mas um dia eu simplesmente acordei e decidi: “Nunca mais.” Que nunca mais teria medo, só os odiaria, e sempre sentiria raiva deles.
Então, eu realmente não dava a mínima que ela estivesse se casando só um mês depois que o marido dela morreu. O que me incomodava era que ela pelo menos podia fingir que estava de luto. As pessoas iam reparar, e elas iam comentar.
Minha mãe apenas deu de ombros, virando-se da janela e olhando para mim do jeito que sempre fazia – como se eu fosse estúpida e não valesse o tempo dela.
“Pensei que, já que você cresceu e ficou mais curvilínea, ia deixar a estupidez de lado,” ela rosnou, “mas pensei errado. Quando a vida te dá uma oportunidade, Rosette, querida, você agarra com as duas mãos. Dane-se as consequências.” Ela passou por mim, indo em direção à porta. “Estou vendendo a casa. Vamos nos mudar para a casa dele assim que os votos forem ditos.”
***
Eu não fui ao casamento. Mamãe enchia meu celular de ligações, mas eu não atendi nenhuma. Não voltei para casa e fiquei na casa de uma amiga, indo para meu trabalho de meio período de lá. Mas a generosidade da minha amiga tinha limites, e eu não podia ficar lá por mais tempo.
Uma semana depois do casamento, finalmente atendi a ligação da Mamãe.
"Menina estúpida," foram as primeiras palavras que ela cuspiu, a voz dura. "Você tem ideia das mentiras que tive que inventar? Devíamos mostrar uma família linda e unida. Devíamos mostrar aos meus novos sogros e ao meu novo marido que somos uma frente unida!"
"Tenho certeza de que você inventou uma mentira convincente," respondi, minha voz indiferente. "Manda o endereço. Vou direto pra lá quando sair do trabalho."
"Você e aquele–"
O telefone fez um bipe quando terminei a ligação, jogando-o de volta na bolsa e voltando para o trabalho.
Não queria ir. Não queria que minha mãe sentisse que tinha vencido ou que ainda tinha algum controle sobre mim, mas eu não tinha escolha. Não podia conseguir um apartamento porque estava juntando dinheiro para a faculdade.
Então eu iria, mas não ia participar dessa farsa de família unida. Só ia engolir tudo que ela jogasse em mim. Era só até o fim do ano, e então eu me mudaria. Finalmente estaria indo para a faculdade.
***
Assim que vi o endereço que Mamãe enviou, soube que ela não tinha se casado com um empresário qualquer. Quando cheguei à mansão, isso só se confirmou.
Era enorme, como um verdadeiro castelo, com muros imponentes e grandes portões. Assim que saí do táxi, alguém estava lá para pegar minhas malas e me conduzir para dentro.
"Bem-vinda, Srta. Rosette," um homem vestido de terno, com óculos grossos apoiados no nariz, me cumprimentou enquanto minhas malas eram levadas. "Sou Gabriel, o mordomo, e estarei à disposição caso precise de algo."
"Prazer em conhecê-lo," disse com uma leve inclinação de cabeça.
Fui conduzida para dentro da mansão, através de um longo corredor, até entrar em uma sala onde minha mãe estava, e então fui deixada sozinha com ela. Ela se levantou imediatamente ao me ver, marchando em minha direção com as mãos na cintura e o rosto vermelho de raiva.
"Não vou deixar você arruinar isso para mim, Rose," ela sussurrou ferozmente na minha cara. "Você vai se comportar. Vai agir como a filha perfeita, sorrir quando for preciso e falar educadamente."
"E se eu decidir não fazer isso?" perguntei apenas para provocá-la. "O que você vai fazer, Mãe? Me bater? Me deixar sem comida por uma semana? Ou quem sabe seu método de punição favorito – me trancar em um armário escuro sem comida nem água?" O rosto dela ficou ainda mais vermelho enquanto eu falava, e sua respiração era pesada. "Você não pode fazer mais nenhuma dessas coisas. Não tem mais controle sobre mim, e vou me comportar do meu jeito. Sorrir quando eu quiser, falar educadamente ou ser rude se eu decidir. Nós duas sabemos que não conseguiríamos apresentar uma imagem adorável quando há tanto ódio entre nós, tanto veneno. É só uma questão de tempo até que seu novo marido descubra que você é toda aparência. O que você vai fazer, então? Pular para a próxima pessoa que te der atenção?"
Ela estava vermelha até o pescoço agora, respirando com dificuldade. “Você ingrata–”
Eu já previa o que ia acontecer antes mesmo dela levantar a mão, mas ainda assim deixei o tapa acertar. O som reverberou na sala grande, ecoando de volta para mim, mas eu nem senti.
Apontei para minha bochecha, no ponto onde eu tinha certeza que já estava ficando roxo. “Unidos, que nada.”
Ela deu um passo na minha direção, mas parou quando uma nova voz falou.
“Está tudo bem?”



