Ponto de Vista de Seraphina
Meu companheiro me traiu.
Fiquei do lado de fora do carro, paralisada, assistindo enquanto a amante dele se sentava em seu colo. Ele enterrava o rosto no peito dela, enquanto os dedos dela se entrelaçavam em seu cabelo. O carro balançava violentamente, como um barco pequeno numa tempestade.
Levei a mão à boca, sem conseguir acreditar no que via, as lágrimas escorrendo incontrolavelmente. Então, a dor ardente veio – um fogo começou sob a marca do companheiro no meu pescoço, queimando meus nervos como prata derretida, e uma sensação de aperto, como se mãos invisíveis me estrangulassem. Não conseguia respirar. Mesmo sendo humana, a dor me cortava os ossos.
Minhas pernas quase falharam. Por quê? Por que Marcus haveria de trair o laço abençoado pela Deusa da Lua? Três anos atrás, ele jurou que nunca o faria.
Como uma humana criada na Alcateia, ninguém acreditava que o Alfa Marcus me aceitaria como sua companheira. Quando sua mãe, Margaret Grimhilde, soube que a escolhida de Marcus era eu – uma humana –, vi uma mudança drástica em sua expressão. No final, ela praticamente gritou, com um olhar matador: "Um lobo Alfa nunca ficará satisfeito com uma companheira – especialmente uma mulher humana insignificante!"
Sabe o que meu companheiro Marcus fez então? Ele avançou como uma muralha, pousando na minha frente. "Como Líder da Alcateia, nunca trairei a bênção da Deusa da Lua. Mesmo que ela seja humana, tratarei sua vida como a minha!", ele rugiu, me puxando para seus braços fortes com aquelas mãos.
Seu cheiro – o frescor de pinho e o aroma de uma tempestade – me envolveu. Naquele momento, me senti protegida, segura.
Margaret cedeu, mas seu ressentimento nunca desapareceu. Mesmo assim, aceitei sua marca, como se fosse meu momento de conto de fadas – uma Cinderela humana.
Sempre planejei deixar a Alcateia ao completar vinte anos e viver no mundo humano. Cresci nela; meus pais eram ambos Ômegas. Eles me disseram que me encontraram perto de uma cidade humana. Cheguei a imaginar que poderia ser uma lobisomem, mas mesmo aos vinte anos, nunca estabeleci um vínculo de lobo. Portanto, sou humana.
Mas Marcus me deu um lar. Abandonei meus planos e me dediquei a ajudá-lo a expandir seus negócios. Por dois anos, desfrutei de todo o amor de Marcus.
No entanto, há um ano, tudo começou a desmoronar. Marcus estava sempre viajando, e a distância entre nós aumentou. Cheguei a pensar em engravidar para mantê-lo por perto.
Que tolice. Percebo isso agora. Apenas agradeço por ter acordado antes de trazer uma criança a este pesadelo. Marcus pode ser um Alfa, mas ainda é um homem – e que homem cumpre suas promessas?
Engoli a dor cortante no meu peito e peguei os papéis do divórcio que Margaret me dera na semana passada. Dá para imaginar a felicidade que ela sente agora.
Há uma semana, Margaret me procurou. Ela queria que eu fizesse Marcus assinar os papéis por qualquer meio – e sem que ele suspeitasse. Se conseguisse em trinta dias, ela me daria um bilhão de dólares.
Trinta dias. O Conselho dos Lobisomens tem uma regra não escrita – dizem que o casamento de um Alfa afeta a estabilidade da Alcateia, então não pode ser dissolvido facilmente. Por isso exigem um período de carência de um mês.
Contanto que nada grave acontecesse na Alcateia durante esses trinta dias, eu poderia sair com o dinheiro – sem esforço, longe dos holofotes.
Na época, a expulsei de casa, furiosa com sua proposta. Disse-lhe na cara que Marcus nunca me trairia. Agora é óbvio que Margaret já sabia que Marcus estava me enganando.
A náusea voltou a subir pela minha garganta. Pensar em como toda a Alcateia me tratou como uma idiota durante um mês inteiro – a humilhação me inundou como uma maré. Tinha de pôr fim a essa farsa.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem à própria rainha do drama – Margaret: [Prepare meu bilhão.]
Assim que a mensagem foi enviada, entrei no carro, meus olhos fixos na direção de Marcus… fixos no Bentley que ainda balançava. Pisei fundo no acelerador! Com um estrondo ensurdecedor, meu Maserati branco disparou como um raio, colidindo direto com o Bentley preto dele.
BANG! Um estrondo devastador. O som do metal se retorcendo encheu meus ouvidos. E, é claro, ouvi os gritos deles.
Soltei uma risada fria. Graças ao Bentley, forte como um tanque, saí ilesa.
Não esperei que se vestissem. Peguei a pasta do banco do passageiro, corri até a janela do motorista de Marcus e bati nela.
Segundos depois, o rosto escultural de Alfa Marcus apareceu. Quando nossos olhos se encontraram, seu maxilar apertou-se.
"Seraphina? Mas que diabos foi isso?!", ele disse, sombrio, sem um traço de pânico por ter sido pego. Como se eu fosse lixo sob seus pés e ele não me devesse explicação alguma.
Mas nada mais importava. Contanto que ele assinasse os papéis do divórcio ali mesmo, estaria satisfeita.
Ignorei sua raiva e, calmamente, estiquei a pasta pela janela. Meu Deus, como eu queria enfiar aqueles malditos papéis goela abaixo daquela garganta arrogante e mentirosa.
"Oh, Alfa Marcus", fingi uma calma que não sentia, "parece que confundi o acelerador com o freio. Deve ter sido um queda de açúcar no sangue. De qualquer forma, aqui está algo que você precisa assinar."
"Passe aqui." Marcus acenou com a cabeça, rígido, e então rabiscou seu nome onde eu havia marcado com um 'X'.
Ver sua assinatura no documento que poria fim ao nosso vínculo… só de ver… fiz meus pulmões respirarem de novo.
"Desculpe o incômodo. Pode voltar à sua brincadeira agora", disse com um sorriso amargo, pronta para partir – até ver um lampejo de irritação no rosto de Marcus.
"Espere!", ele gritou.
Olhei pra ele com frieza e sarcasmo. "O que foi, Alfa Marcus? Precisa de uma camisinha? Lubrificante? Ou Viagra?"
"Droga, Seraphina! Não é o que parece!", Marcus franziu a testa, mas uma voz melosa o interrompeu. "Alfa Marcus, meu vestido rasgou… você tem que me compensar…"
O sorriso no meu rosto congelou. Mordi o lábio com força; o gosto de sangue me encheu a boca. Tinha de sair dali imediatamente, ou não conseguiria me conter de pegar a arma no meu carro e atirar direto nas têmporas deles.
Não podia permitir que meus pais fossem exilados da Alcateia junto comigo.
Sentei-me no banco do motorista, à beira de um colapso – como se fosse a única presa na última página do conto de fadas, onde o príncipe e a princesa partem sob aplausos, enquanto ninguém se importa com o que vem depois.
Como se todos já soubessem – que ali a felicidade acabava, e o que se seguia era apenas traição e mentiras.
Engoli o choro e limpei as lágrimas do canto dos olhos. Agora, apenas o dinheiro de Margaret me traria algum conforto.
Meu telefone vibrou. Como esperado, era Margaret. Seu tom ainda era arrogante: "Quero ver a assinatura do meu filho ao vivo e a cores."
Ri baixinho, tirei uma foto da assinatura de Marcus no documento e a enviei para ela.
"Como desejar. Você tem o número da minha conta."
Nesse instante, Bruce apareceu, batendo na minha janela com urgência.
Ele me entregou uma caixa de veludo elegante. Seu sorriso era cortês, mas seus olhos piscavam nervosos, como se não ousasse olhar para mim.
"Luna Seraphina, o Alfa escolheu isto para a senhora. Disse que é seu presente de aniversário."
Abri a caixa. Dentro, havia um conjunto luxuoso de joias de diamantes – com um design requintado, que brilhava mesmo sob a luz fraca da garagem.
Valia uma fortuna, obviamente. Se Marcus não tivesse me traído, eu teria aceitado – sorrido, ficado quieta, feito o papel de sua Luna discreta, fingindo que aquilo simbolizava nosso amor.
Mas agora? Era apenas uma bela prisão.
Fechei a caixa rapidamente e olhei para o Bruce. "Que atencioso da parte dele, não? Meter o pau em outra enquanto se lembra de comprar um presente para sua Luna trouxa."
"Luna Seraphina", Bruce disse nervoso, "talvez o Alfa Marcus tenha seus motivos…"
Claro que tem. A menos que 'trair' tenha se tornado uma emergência médica, não há desculpa que coloque. Mas Bruce era um dos poucos na equipe de Marcus que me tratava com gentileza. Provavelmente só não queria me ver sofrendo. Era tudo o que ele podia fazer – era apenas um assistente.
"Me dê aqui", eu disse, estendendo a mão. Não havia por que Bruce se prejudicar – Marcus era rígido com seus funcionários, e Bruce precisava do emprego.
Quando peguei a caixa, Bruce pareceu mais aliviado. Eu entendi – seu emprego estava em jogo.
Assim que ele saiu, peguei meu telefone e fotografei o colar. Então, enviei uma mensagem ao revendedor de luxo com quem costumava lidar.
[Consegue vender este conjunto o quanto antes? Doe todo o valor para a Fundação Filhotes da Lua que eu apoio.]
Assim que enviei a mensagem, recostei-me no assento e abaixei a janela. A brisa acariciou meu rosto.
O céu estava pintado com as cores vibrantes do pôr do sol. Pela primeira vez em muito tempo, o mundo não parecia tão opressivo.
Trinta dias. Apenas mais trinta dias, e eu estaria completamente livre deste inferno.



